Desligamento emocional

Por Romina Miranda Este tema , tão importante e debatido nos grupos de apoio, nos ensina uma premissa básica para a saúde mental: o distanciamento da situação problema. Porém, para os codependentes, com suas dificuldades em relação ao apego , esta “façanha” não é assim tão simples. Para muitos, distanciar-se parece representar “abrir mão”. Mas de quê? Ou de quem? Seria do ente querido ou de algo com que ele – o codependente – ainda não sabe lidar, como, por exemplo o controle? Distanciar-se do problema, desligar-se emocionalmente da pessoa cujos comportamentos lhe adoecem não seria uma forma de perder o controle sobre a situação? “Afinal, se eu não estiver à frente da situação, o que será do outro?”, pensa ele. E, inconscientemente sabe que, sem o outro e, principalmente, o problema do outro, o que será dele mesmo? Afinal, a vida vem girando em torno do problema do outro. Porém, quando exauridos pela dor, cansados de repetir padrões, comportamentos disfuncionais, já mais conscientes das consequências danosas das reações codependentes, muitos já experimentam o desligamento emocional com a real vontade de fazer dar certo. E assim, enfrentam, é claro, as dificuldades de lidar com vários sentimentos controversos durante o processo, como a culpa, por estarem se desligando quando acham que deveriam estar fazendo sempre, mais e mais, como a pena, quando são confrontados com a manipulação consequente da própria mudança de seus comportamentos, entre outras emoções. O importante é lembrar que é somente quando nos distanciamos do problema é que podemos vislumbrar a sua real dimensão, a sua verdadeira perspectiva. Dentro do “furacão” pouco podemos fazer para nos libertamos...

A relação conjugal e o uso de drogas

Por Romina Miranda Nos grupos de apoio destinados aos cônjuges de usuários  de substâncias psicoativas , podemos notar uma série de especificidades nestas relações familiares, que diferem das demais, como, por exemplo, as parentais. Por isso, é importante oferecer aos cônjuges um espaço destinado somente a eles, de forma que possam elaborar questões referentes a este tipo de relação, a que envolve a afetividade conjugal, a sexualidade e, muitas vezes, a paternidade ou maternidade dos filhos dos usuários. Apesar de trabalharmos com grupos destinados aos homens e mulheres cônjuges, nas experiências que tive, a maioria dos participantes eram mulheres, visto que, em estatísticas gerais, o número de mães e esposas que buscam ajuda para a questão do uso e abuso de álcool e outras drogas é sempre relativamente maior do que o de pais ou de esposos. Em programas de apoio às famílias, mais de 80% dos frequentadores são mulheres e, na sequência, estão as esposas ou companheiras. Entre as principais dificuldades estão os padrões de comunicação ( por vezes, muitas  brigas e, em outras, evitando o assunto para não causá-las), a adequação dos papéis ( muitas companheiras tomam a responsabilidade total pela casa e pelo sucesso do casamento, assumindo papéis maternais), além da dependência emocional que, muitas vezes, dificulta a evolução do tratamento do usuário, visto que , nem sempre, a outra parte da relação está pronta para o enfrentamento do que realmente significa modificar este padrão de relação doentia. Outro fator importante neste tipo de abordagem é a questão dos filhos, que, na maioria das vezes,  já estão vivenciando situações opressoras, assistindo episódios de abusos verbais ou...

Assumindo a responsabilidade

Por Romina Miranda Uma das outras características marcantes da família dependente é privar o dependente químico de suas responsabilidades e das consequências de seus atos. Esposas tomam para si as despesas do lar, o cuidado com os filhos, com a casa, a preocupação em manter a relação e família unida. Muitas vezes, mentem para os chefes de seus maridos, justificando suas ausências ao trabalho por motivos diversos, quando estes estavam, na verdade na ressaca do dia anterior. Pais pagam todas as despesas para filhos que não estudam e nem trabalham, mas utilizam seu tempo livre para fazer uso de drogas. Quando situações complicadas ocorrem como resultado do uso, os pais arcam com os danos, com os resultados, evitando que os filhos passem pela experiência dolorosa da consequência de uma ação irresponsável. E, quando fazem o menor esforço por algo, são recompensados com honrarias, as quais não valorizam em nada e logo as descartarão, muitas vezes, trocando-as por drogas. Exemplos? O filho é pego com drogas e deve ser levado à Justiça Terapêutica para participar de grupos de Apoio e/ou prestarem serviços comunitários. Os pais chegam antes, e querem pagar para que o filho não passe pelo processo de ser penalizado pelo ato cometido. Outro exemplo: o filho passa alguns meses numa comunidade terapêutica para se tratar. Ao sair, os pais querem recompensá-lo pelo “esforço” de ter passado pelo processo terapêutico. O filho pede um carro, uma moto. Os pais o presenteiam. Logo o bem se tornará moeda de troca para o uso de drogas. Isso quer dizer que os pais não deverão nunca mais presentear seus filhos ou recompensá-los...

A espiritualidade dos 12 Passos

Por Romina Miranda Admitir a situação, considerar a existência de um Poder Superior e entregar a vida e a vontade aos cuidados deste  são ações que resumem a sequência dos três primeiros passos na programação utilizada pelas irmandades anônimas. As propostas que se seguem nos demais passos , apesar de não terem tempo definido para serem realizadas, passam, necessariamente, pelos três primeiros. Sendo o programa espiritual, mas não religioso, toda a trajetória é permeada pela vivência da espiritualidade, da busca por algo sagrado que, certamente é maior e mais forte do que a situação problema em questão, seja ela a dependência química, a codependência, as emoções destrutivas, o comer ou o jogar compulsivo. Para que esta busca tenha sentido é preciso que, no primeiro passo, aconteça a admissão, a aceitação, a rendição. É preciso aceitar que existe uma situação problema que tem dominado as nossas vidas. E este passo , apesar de ser o primeiro, não é fácil. Afinal, quantos usuários de substâncias psicoativas não passam anos sem admitir que o seu uso é nocivo e que já não conseguem parar de usar quando querem? Quantas famílias não passam mais outros tantos anos sem admitir que o ente querido faz uso nocivo e mais, que elas são partes facilitadoras desta história? Por quantos anos as dores não criam moradas simplesmente por serem negadas? Então, gentilmente, o primeiro passo nos convida a aceitar esta realidade. Aí sim, depois disto, nos é sugerido que consideremos a possibilidade de que alguém, algo superior a nós possa nos auxiliar nesta situação, Neste momento, de acordo com suas crenças, cada um há de considerar o que...

Caminhando pela recuperação

Por Romina Miranda Quando familiares de dependentes químicos tomam conhecimento de que a doença é crônica, que precisa de tratamento para a vida toda, assim com a diabetes ou a pressão alta, muitos ficam impactados de forma bastante negativa, com dificuldades de aceitação, sem esperança, Mas, quando entendem que a recuperação é possível e que eles são parte integrante do tratamento, poderão então ir à busca do aprendizado necessário para contribuírem da melhor forma neste processo. Nesta fase, possivelmente entenderão que eles também precisarão de apoio, tratamento e orientação constantes, que a recuperação será de todo o sistema familiar, cada um à sua maneira, em seu tempo, da forma mais acertada para cada membro. Assim poderão caminhar pela recuperação, entendendo-a como um processo, de idas e vindas, de altos e baixos, de vitórias e perdas. Aceitar que todos os dias serão recomeços, que oferecerão oportunidades de crescimento, de novos aprendizados é uma forma saudável e tranquila de vivenciar a realidade, sem negação, culpa, vergonha ou medo, mas com coragem, serenidade, força e fé, os ingredientes necessários para qualquer processo de recuperação. Para reforçar esta forma de viver, os grupos de mútua ajuda são essenciais. Nas reuniões semanais, os membros trocam força e esperança, experiências e vivências e alimentam a motivação necessária para levarem adiante as suas metas e conviverem com as dificuldades com a aceitação necessária. Sentindo-se pertencentes a um grupo que também caminha pela recuperação, os familiares percebem que a trajetória fica mais clara, os fardos mais leves, as possibilidades de qualidade de vida aumentam. É essencial que cada um encontre a melhor forma de vivenciar a recuperação...

Espiritualidade em família

Por Romina Miranda Diversas pesquisas mostram como a espiritualidade auxilia na prevenção ao uso de drogas e na recuperação de usuários. Na Igreja, jovens encontram amigos com objetivos comuns, estímulo à busca por significado na vida, além da acolhida de um líder que não costuma julgar, mas sim aceitar, orientar e amar. Quando em abstinência, usuários que são estimulados à prática da espiritualidade, usam a oração como instrumento para combater a fissura. Nos grupos de apoio, Anônimos ou Amor-Exigente, a espiritualidade pluralista é parte integrante do programa de recuperação. E qual é o papel da família neste contexto? Na formação dos filhos, período em que podemos imaginar como “prevenção”, estimular a espiritualidade, sem contemplar aqui a religião, mas a busca de algo sagrado, de um significado maior, estimula diversos aspectos positivos. Estar em família buscando a espiritualidade é um momento de união, de acolhida entre os membros, o que fortalece o sentido de proteção no sistema familiar. E deixar para os filhos o legado da espiritualidade é capacitá-los para buscar alternativas para o enfrentamento de problemas na vida, além de incentivá-los a praticar a caridade, a fraternidade, o amor ao próximo, comportamentos saudáveis no desenvolvimento do ser. Quando em situação de uso e abuso, a espiritualidade na família é essencial para o auxílio na vivência dolorosa. Para os entes que foram impactados pelo uso, voltar-se para o Poder Superior é um grande alívio para o fardo que costumam carregar, além de uma fonte de renovação de esperança, o que eles precisam, dia pós dia, para enfrentarem a situação e se mobilizarem para a busca de ajuda, acreditando no melhor,...

Reorganizando famílias

Por Romina Miranda Quando um usuário de substâncias psicoativas passa por um período de internação, é fundamental para o sucesso do tratamento, que, paralelamente, a família seja acompanhada também. Cada um, de um lado, trabalhando as suas questões emocionais relacionadas ao uso, ao impacto que ele promoveu no sistema familiar, poderá agregar benefícios ao tratamento, promovendo resultados positivos e satisfatórios. Porém, quando ele retorna ao lar, mesmo com o aprendizado obtido, tanto usuário, quanto familiar, apresentarão dificuldades na vivência de um novo relacionamento. Muitas vezes, por anos, a família conviveu com o uso e abuso de drogas, e este, por sua vez, era uma consequência de diversos padrões disfuncionais. A família moldou-se a esta forma de se relacionar, onde a disfunção, a doença, a dificuldade na comunicação imperavam. Agora, com o novo momento, faz-se necessário que todo o sistema familiar seja apoiado para o desenvolvimento destes novos padrões, para os ajustes na comunicação, para a vivência de novos hábitos, saudáveis, com novos limites e disciplina, com qualidade de vida e com perspectivas de uma nova vida, para todos....

Crenças disfuncionais

Por Romina Miranda Algumas crenças são comuns ao imaginário das famílias que vivenciam a dependência química. “Se ele quiser, ele pára de usar”; “ele usa porque não tem força de vontade”; “eu tive culpa por sua recaída”; “se ele me amasse, bebia mais”. Estes são alguns exemplos. Muitos destes pensamentos são provenientes da falta de informação sobre a doença, seu funcionamento, sobre os comportamentos que fazem parte do cotidiano do usuário, porém, exacerbados pela negação, criam raízes e passam a funcionar como crenças rígidas, paralisando famílias em torno de algo que não é real e, mais: que não funciona para melhorar a situação. Quando pensamos em tratar famílias, o primeiro ponto é entender quais são as crenças que fazem parte do universo destas e intervir com informações sobre a dependência química em toda a sua complexidade. Pouco a pouco, entendendo o mecanismo da doença e de como ela afeta todo o sistema familiar, os membros desconstruirão tais crenças e, como o apoio adequado, poderão substituí-las por aquelas que impactarão de forma positiva na saúde de toda a família. Quando o “se ele quiser, pára de usar” for substituído por “sem tratamento, a doença pode progredir”, podemos afirmar que a família já possui algum conhecimento sobre a dinâmica da doença e poderá auxiliar em seu tratamento. Quando for possível entender que o amor não está relacionado ao uso e que , muitas vezes, o usuário não pode amar ao outro pois não está conseguindo nem se amar, certamente haverá compaixão e compreensão suficientes para que a família se una em torna da busca de uma solução. Assim, com cada nova...

Buscando o equilíbrio emocional

Por Romina Miranda Na literatura das irmandades anônimas, encontramos importantes ferramentas para lidar com o desequilíbrio emocional, evitando gatilhos, reconhecendo e aceitando emoções, assumindo responsabilidades sobre as próprias escolhas e suas consequências. As irmandades direcionam muitos de seus lemas e preceitos para diversas situações, de acordo com a temática tratada em cada uma delas. Assim, é possível perceber que o equilíbrio emocional faz parte da recuperação de qualquer situação a que se destine o programa dos 12 passos, seja para o usuário de álcool, de outras drogas e também ao seu familiar. Portanto, desequilíbrio emocional não é tema de atenção apenas de membros de AA ( Alcoólicos Anônimos) ou NA ( Narcóticos Anônimos), mas também assunto a ser observado nas famílias que , por sua vez, frequentam Al-Anon e Nar-Anon, irmandades para familiares de alcoólicos e narcóticos. Mais uma vez é possível perceber que os comportamentos que afetam os usuários de substâncias psicoativas afetam também seus familiares, adoecendo todo o sistema familiar. O desequilíbrio que faz parte do cotidiano do usuário, muitas vezes precedendo recaídas comportamentais e no uso, também afeta seus familiares que podem ter reações impulsionadas pela raiva, pelo medo, pela culpa, com comportamentos autodestrutivos e não reforçadores da recuperação de seus entes. É visível como a ação de um membro cria reação no outro, como o comportamento de um afeta o de outro e o porque é tão importante então que todos busquem o equilíbrio emocional e trabalhem suas dificuldades para não desestabilizarem o sistema familiar que busca a saúde e a recuperação, mas sim, trabalhem todas as possibilidades para que o equilíbrio faça parte integrante...

A importância de dizer não

Por Romina Miranda Frutos de uma geração que pregava a autoridade (não o autoritarismo!) como item primordial para a educação, cometemos o equívoco de querer fazer o contrário. Havia uma época em que a hierarquia era respeitada na maioria das famílias. Pais faziam papel de pais, de orientadores, de educadores, preservando o afeto, sem perderem-se na necessidade de serem “amigos” dos filhos. Sem o estresse atual, promovido pelas diversas inconstâncias que nos cercam – concorrência no mercado de trabalho, violência, dificuldades financeiras e bombardeio de informações pela mídia – havia mais disponibilidade para estar presente na família, compartilhar, sentar à mesa para conversar. Era mais fácil ter acesso às necessidades básicas do seu humano: amor e pertencimento. Os pais não precisavam usar o “sim” como moeda de troca pela ausência emocional e nem pela necessidade de serem amados pelos filhos. O equilíbrio entre o amor e a exigência era mais presente nos lares. Hoje, os valores mudaram, os papéis se inverteram e as famílias passaram a ser disfuncionais, ou seja, as suas funções não estão corretas. Pais têm receio de comandar a família e filhos sentem-se poderosos para isso. Os pais, na verdade, estão tomados pelo medo. É medo de apertar o cerco e não dar sustentar a decisão, medo de soltar demais as rédeas e perder o rumo, medo de dizer “não” e perder o afeto, a aceitação, “a amizade” que muitos consideram ser a relação necessária entre pais e filhos. Porém, quando encorajados a começar a dizer “não”, sustentando a decisão pensada com coerência, os pais sentem-se empoderados, as rédeas da família passam para as suas mãos,...