Familia. Como ajudar? Passo 2 – Iniciando o meu tratamento

Por Romina Miranda Este artigo compõe a série de orientações para familiares de substâncias psicoativas para que, passo a passo, possam seguir uma trajetória em busca da qualidade de vida que auxiliará, como um apoio saudável,  a recuperação de seus entes que estão em processo de tratamento. Passo 2 : Iniciando o meu tratamento No artigo anterior, falamos sobre a importância de entender que quando o ente usuário de substâncias psicoativas vai para um centro de tratamento, é fundamental que o familiar inicie também o próprio processo terapêutico para que possa ser um agente de sucesso na recuperação. Já inserida em um grupo de apoio ou terapia individual, a família inicia um processo, em principio, involuntário. São muitos os familiares que citam a frase “ quem precisa de tratamento é ele, e não eu”, referindo-se ao ente usuário. O primeiro conceito a ser derrubado é este. Toda a família é impactada pelo uso e abuso de álcool e outras drogas que acontece em seu núcleo. Todos precisam de alguma forma de ajuda. E como isso acontece? Quando acontece a descoberta do uso de drogas na família, os familiares mais próximos do usuário passam por grande impacto. As pesquisas realizadas com familiares de usuários de substâncias psicoativas mostram que entre o inicio de uso e a descoberta são cerca de 8 anos e para buscar ajuda, mais 3. Quanto tempo perdido que poderia ser revertido em tratamento! E por que as famílias demoram tanto a descobrir? Pela negação , mecanismo de defesa natural, normalmente acionado quando sabemos estar diante de uma situação que julgamos inaceitável e que não sabemos como...

Família. Como ajudar?

Por Romina Miranda Através deste artigo, vamos dar início a uma série de orientações para familiares de substâncias psicoativas para que, passo a passo, possam seguir uma trajetória em busca da qualidade de vida que auxiliará, como um apoio saudável,  a recuperação de seus entes que estão em processo de tratamento. Passo 1 : Ele está sob cuidados profissionais A maior parte das famílias de usuários de substâncias psicoativas (SPAs) , quando toma a decisão de interná-los, seja de forma voluntária ou não, passa por um processo de ambivalências, questionando-se com frequência sobre a atitude tomada. “ Será que fizemos o correto ao interná-lo? Será que não poderíamos ter tentando de outra forma? Será que este é o melhor lugar? Está sendo bem tratado, comendo bem, dormindo bem? É correto dar-lhe medicamentos, ficar sem contato? Devo ligar para o centro de tratamento todos os dias?” Estes são alguns dos questionamentos. Neste processo de dúvidas, a família não se permite vivenciar o que pede o momento: permitir que o ente seja cuidados por profissionais especializados e buscar ajudar para si em grupos de apoio ou terapia individual. E assim, dá continuidade, mesmo que distante, ao processo de controle doentio que nada de positivo acrescenta na construção de uma nova e saudável relação. Então, o que pede o momento? Confiar na atitude tomada, no local escolhido, nos profissionais envolvidos, isto porque antes de tomar a iniciativa, o local já deve ter sido pesquisado e referenciado. Agora é hora de deixar o processo de tratamento do ente acontecer como previsto. Importante estar atento às regras do local, às necessidades básicas, às informações...

Família e estresse

Por Romina Miranda Quando um indivíduo possui um familiar usuário de substâncias psicoativas, os fatores estressores em sua vida são constantes. Os sentimentos vivenciados são negativos como medo, raiva, culpa, decepção, tristeza, impotência. A interação de seu ente com os perigos a qual está exposto é motivo de sua maior angústia. Os riscos que o usuário corre são, para a família, fonte de forte pressão psicológica , que a deixam vulneráveis ao desenvolvimento, inclusive, da depressão. Por este motivo, antes de imaginarmos a importância que a família tem no processo de recuperação de seu ente usuário – como fator de risco ou proteção – precisamos pensar em maneiras de minimizar o impacto que ela sofre diante da convivência com o mesmo, pois, adoecida, pouco poderá fazer pela recuperação do usuário. Porém, imaginar que para a família não sofrer, é necessário que o usuário deixe de usar drogas é descartar as reais possibilidades que ela tem de obter qualidade de vida , mesmo vivenciando a situação da dependência química. Colocar todas as esperanças de melhora da família na recuperação do usuário é antecipar a frustração. É preciso que o familiar entenda, em primeiro lugar, como foi impactado pelo uso de seu ente, como está fragilizado por conviver diariamente com fatores estressores, que minam a sua qualidade de vida. A partir desta constatação, ele precisa estar certo de que, para ajudar seu ente usuário, vai precisar iniciar os cuidados consigo mesmo, fortalecendo-se para continuar a trajetória, nada fácil, de conviver com o usuário e aprender a fazer isto da melhor forma, da maneira mais adequada para não facilitar a continuidade da...

Desligamento emocional

Por Romina Miranda Este tema , tão importante e debatido nos grupos de apoio, nos ensina uma premissa básica para a saúde mental: o distanciamento da situação problema. Porém, para os codependentes, com suas dificuldades em relação ao apego , esta “façanha” não é assim tão simples. Para muitos, distanciar-se parece representar “abrir mão”. Mas de quê? Ou de quem? Seria do ente querido ou de algo com que ele – o codependente – ainda não sabe lidar, como, por exemplo o controle? Distanciar-se do problema, desligar-se emocionalmente da pessoa cujos comportamentos lhe adoecem não seria uma forma de perder o controle sobre a situação? “Afinal, se eu não estiver à frente da situação, o que será do outro?”, pensa ele. E, inconscientemente sabe que, sem o outro e, principalmente, o problema do outro, o que será dele mesmo? Afinal, a vida vem girando em torno do problema do outro. Porém, quando exauridos pela dor, cansados de repetir padrões, comportamentos disfuncionais, já mais conscientes das consequências danosas das reações codependentes, muitos já experimentam o desligamento emocional com a real vontade de fazer dar certo. E assim, enfrentam, é claro, as dificuldades de lidar com vários sentimentos controversos durante o processo, como a culpa, por estarem se desligando quando acham que deveriam estar fazendo sempre, mais e mais, como a pena, quando são confrontados com a manipulação consequente da própria mudança de seus comportamentos, entre outras emoções. O importante é lembrar que é somente quando nos distanciamos do problema é que podemos vislumbrar a sua real dimensão, a sua verdadeira perspectiva. Dentro do “furacão” pouco podemos fazer para nos libertamos...

A relação conjugal e o uso de drogas

Por Romina Miranda Nos grupos de apoio destinados aos cônjuges de usuários  de substâncias psicoativas , podemos notar uma série de especificidades nestas relações familiares, que diferem das demais, como, por exemplo, as parentais. Por isso, é importante oferecer aos cônjuges um espaço destinado somente a eles, de forma que possam elaborar questões referentes a este tipo de relação, a que envolve a afetividade conjugal, a sexualidade e, muitas vezes, a paternidade ou maternidade dos filhos dos usuários. Apesar de trabalharmos com grupos destinados aos homens e mulheres cônjuges, nas experiências que tive, a maioria dos participantes eram mulheres, visto que, em estatísticas gerais, o número de mães e esposas que buscam ajuda para a questão do uso e abuso de álcool e outras drogas é sempre relativamente maior do que o de pais ou de esposos. Em programas de apoio às famílias, mais de 80% dos frequentadores são mulheres e, na sequência, estão as esposas ou companheiras. Entre as principais dificuldades estão os padrões de comunicação ( por vezes, muitas  brigas e, em outras, evitando o assunto para não causá-las), a adequação dos papéis ( muitas companheiras tomam a responsabilidade total pela casa e pelo sucesso do casamento, assumindo papéis maternais), além da dependência emocional que, muitas vezes, dificulta a evolução do tratamento do usuário, visto que , nem sempre, a outra parte da relação está pronta para o enfrentamento do que realmente significa modificar este padrão de relação doentia. Outro fator importante neste tipo de abordagem é a questão dos filhos, que, na maioria das vezes,  já estão vivenciando situações opressoras, assistindo episódios de abusos verbais ou...

Assumindo a responsabilidade

Por Romina Miranda Uma das outras características marcantes da família dependente é privar o dependente químico de suas responsabilidades e das consequências de seus atos. Esposas tomam para si as despesas do lar, o cuidado com os filhos, com a casa, a preocupação em manter a relação e família unida. Muitas vezes, mentem para os chefes de seus maridos, justificando suas ausências ao trabalho por motivos diversos, quando estes estavam, na verdade na ressaca do dia anterior. Pais pagam todas as despesas para filhos que não estudam e nem trabalham, mas utilizam seu tempo livre para fazer uso de drogas. Quando situações complicadas ocorrem como resultado do uso, os pais arcam com os danos, com os resultados, evitando que os filhos passem pela experiência dolorosa da consequência de uma ação irresponsável. E, quando fazem o menor esforço por algo, são recompensados com honrarias, as quais não valorizam em nada e logo as descartarão, muitas vezes, trocando-as por drogas. Exemplos? O filho é pego com drogas e deve ser levado à Justiça Terapêutica para participar de grupos de Apoio e/ou prestarem serviços comunitários. Os pais chegam antes, e querem pagar para que o filho não passe pelo processo de ser penalizado pelo ato cometido. Outro exemplo: o filho passa alguns meses numa comunidade terapêutica para se tratar. Ao sair, os pais querem recompensá-lo pelo “esforço” de ter passado pelo processo terapêutico. O filho pede um carro, uma moto. Os pais o presenteiam. Logo o bem se tornará moeda de troca para o uso de drogas. Isso quer dizer que os pais não deverão nunca mais presentear seus filhos ou recompensá-los...

A espiritualidade dos 12 Passos

Por Romina Miranda Admitir a situação, considerar a existência de um Poder Superior e entregar a vida e a vontade aos cuidados deste  são ações que resumem a sequência dos três primeiros passos na programação utilizada pelas irmandades anônimas. As propostas que se seguem nos demais passos , apesar de não terem tempo definido para serem realizadas, passam, necessariamente, pelos três primeiros. Sendo o programa espiritual, mas não religioso, toda a trajetória é permeada pela vivência da espiritualidade, da busca por algo sagrado que, certamente é maior e mais forte do que a situação problema em questão, seja ela a dependência química, a codependência, as emoções destrutivas, o comer ou o jogar compulsivo. Para que esta busca tenha sentido é preciso que, no primeiro passo, aconteça a admissão, a aceitação, a rendição. É preciso aceitar que existe uma situação problema que tem dominado as nossas vidas. E este passo , apesar de ser o primeiro, não é fácil. Afinal, quantos usuários de substâncias psicoativas não passam anos sem admitir que o seu uso é nocivo e que já não conseguem parar de usar quando querem? Quantas famílias não passam mais outros tantos anos sem admitir que o ente querido faz uso nocivo e mais, que elas são partes facilitadoras desta história? Por quantos anos as dores não criam moradas simplesmente por serem negadas? Então, gentilmente, o primeiro passo nos convida a aceitar esta realidade. Aí sim, depois disto, nos é sugerido que consideremos a possibilidade de que alguém, algo superior a nós possa nos auxiliar nesta situação, Neste momento, de acordo com suas crenças, cada um há de considerar o que...

Caminhando pela recuperação

Por Romina Miranda Quando familiares de dependentes químicos tomam conhecimento de que a doença é crônica, que precisa de tratamento para a vida toda, assim com a diabetes ou a pressão alta, muitos ficam impactados de forma bastante negativa, com dificuldades de aceitação, sem esperança, Mas, quando entendem que a recuperação é possível e que eles são parte integrante do tratamento, poderão então ir à busca do aprendizado necessário para contribuírem da melhor forma neste processo. Nesta fase, possivelmente entenderão que eles também precisarão de apoio, tratamento e orientação constantes, que a recuperação será de todo o sistema familiar, cada um à sua maneira, em seu tempo, da forma mais acertada para cada membro. Assim poderão caminhar pela recuperação, entendendo-a como um processo, de idas e vindas, de altos e baixos, de vitórias e perdas. Aceitar que todos os dias serão recomeços, que oferecerão oportunidades de crescimento, de novos aprendizados é uma forma saudável e tranquila de vivenciar a realidade, sem negação, culpa, vergonha ou medo, mas com coragem, serenidade, força e fé, os ingredientes necessários para qualquer processo de recuperação. Para reforçar esta forma de viver, os grupos de mútua ajuda são essenciais. Nas reuniões semanais, os membros trocam força e esperança, experiências e vivências e alimentam a motivação necessária para levarem adiante as suas metas e conviverem com as dificuldades com a aceitação necessária. Sentindo-se pertencentes a um grupo que também caminha pela recuperação, os familiares percebem que a trajetória fica mais clara, os fardos mais leves, as possibilidades de qualidade de vida aumentam. É essencial que cada um encontre a melhor forma de vivenciar a recuperação...

Espiritualidade em família

Por Romina Miranda Diversas pesquisas mostram como a espiritualidade auxilia na prevenção ao uso de drogas e na recuperação de usuários. Na Igreja, jovens encontram amigos com objetivos comuns, estímulo à busca por significado na vida, além da acolhida de um líder que não costuma julgar, mas sim aceitar, orientar e amar. Quando em abstinência, usuários que são estimulados à prática da espiritualidade, usam a oração como instrumento para combater a fissura. Nos grupos de apoio, Anônimos ou Amor-Exigente, a espiritualidade pluralista é parte integrante do programa de recuperação. E qual é o papel da família neste contexto? Na formação dos filhos, período em que podemos imaginar como “prevenção”, estimular a espiritualidade, sem contemplar aqui a religião, mas a busca de algo sagrado, de um significado maior, estimula diversos aspectos positivos. Estar em família buscando a espiritualidade é um momento de união, de acolhida entre os membros, o que fortalece o sentido de proteção no sistema familiar. E deixar para os filhos o legado da espiritualidade é capacitá-los para buscar alternativas para o enfrentamento de problemas na vida, além de incentivá-los a praticar a caridade, a fraternidade, o amor ao próximo, comportamentos saudáveis no desenvolvimento do ser. Quando em situação de uso e abuso, a espiritualidade na família é essencial para o auxílio na vivência dolorosa. Para os entes que foram impactados pelo uso, voltar-se para o Poder Superior é um grande alívio para o fardo que costumam carregar, além de uma fonte de renovação de esperança, o que eles precisam, dia pós dia, para enfrentarem a situação e se mobilizarem para a busca de ajuda, acreditando no melhor,...

Reorganizando famílias

Por Romina Miranda Quando um usuário de substâncias psicoativas passa por um período de internação, é fundamental para o sucesso do tratamento, que, paralelamente, a família seja acompanhada também. Cada um, de um lado, trabalhando as suas questões emocionais relacionadas ao uso, ao impacto que ele promoveu no sistema familiar, poderá agregar benefícios ao tratamento, promovendo resultados positivos e satisfatórios. Porém, quando ele retorna ao lar, mesmo com o aprendizado obtido, tanto usuário, quanto familiar, apresentarão dificuldades na vivência de um novo relacionamento. Muitas vezes, por anos, a família conviveu com o uso e abuso de drogas, e este, por sua vez, era uma consequência de diversos padrões disfuncionais. A família moldou-se a esta forma de se relacionar, onde a disfunção, a doença, a dificuldade na comunicação imperavam. Agora, com o novo momento, faz-se necessário que todo o sistema familiar seja apoiado para o desenvolvimento destes novos padrões, para os ajustes na comunicação, para a vivência de novos hábitos, saudáveis, com novos limites e disciplina, com qualidade de vida e com perspectivas de uma nova vida, para todos....